Jardim do Cercadinho: A raiz esquecida da botânica imperial, em Santa Cruz

Do refúgio de oração dos jesuítas ao berço das mudas exóticas que deram origem ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro

O Jardim do Cercadinho, histórico espaço de cultivo fundado originalmente nos terrenos da antiga Fazenda de Santa Cruz, na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro, no estado fluminense, foi a verdadeira gênese do desenvolvimento botânico do Brasil imperial. O local, que começou como uma área de repouso e orações dos padres jesuítas no século XVIII, foi transformado em um estratégico horto de aclimatação da Coroa Portuguesa após a expulsão da Companhia de Jesus em 1759. Durante o Primeiro e o Segundo Império, o complexo ganhou projeção internacional ao ser utilizado diretamente pelas imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Teresa Cristina para o cultivo de mudas trazidas do mundo todo. Essa rica coleção botânica e a própria estrutura científica do Cercadinho deram origem e sustentação ao acervo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e influenciaram a criação da futura Real Sociedade de Botânica. Embora tenha recebido projetos de arborização planejados pelo famoso paisagista francês François Marie Glaziou, o sítio histórico foi abandonado e desapareceu em meados do século XIX.

Do misticismo jesuítico ao domínio da Coroa

A história da área foi iniciada no período colonial, quando a vasta Fazenda de Santa Cruz era administrada pela Companhia de Jesus. Pelos padres jesuítas, os caminhos arborizados do chamado "Cercadinho" eram utilizados como um refúgio sagrado para a realização de orações, meditações e o cultivo de ervas medicinais nativas. No entanto, em 1759, por meio do decreto de expulsão assinado pelo Marquês de Pombal, todas as propriedades da ordem foram confiscadas.

A partir daquele momento, as terras de Santa Cruz passaram a ser incorporadas aos bens da Coroa. Sob o domínio real, o antigo espaço religioso foi reconfigurado por volta de 1820, quando o Jardim do Cercadinho foi institucionalizado como um horto real de aclimatação, voltado à experimentação agrária e à subsistência científica da corte.

O berço botânico das imperatrizes e a transferência real

O ápice científico do horto foi alcançado a partir de 1817, com a chegada da arquiduquesa austríaca e primeira imperatriz do Brasil, Dona Leopoldina. Por ser uma profunda entusiasta das ciências naturais, o Jardim do Cercadinho foi transformado por ela em um dinâmico centro de intercâmbio biológico global. Mudas raras de espécimes exóticos, plantas medicinais europeias e sementes asiáticas eram enviadas de todas as partes do mundo para a imperatriz, que as cultivava pessoalmente nos solos férteis da Zona Oeste carioca.

Mais tarde, já na década de 1840, a continuidade do projeto foi assegurada pela imperatriz Dona Teresa Cristina. À medida que o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (fundado na Zona Norte por Dom João VI) expandia sua estrutura urbana, o Cercadinho funcionou como o principal berço fornecedor: de mudas aclimatadas em Santa Cruz foram transferidas para consolidar o acervo definitivo da instituição, servindo também de inspiração para os debates que culminaram na criação da Real Sociedade de Botânica.

O traço de Glaziou e o ocaso do horto

A modernização final do espaço ocorreu sob o olhar do Segundo Império. Para reestruturar o paisagismo e a catalogação científica da corte, o engenheiro e botânico francês François Marie Glaziou foi contratado pelo imperador Dom Pedro II. Desenhos de alinhamento geométrico, sistemas de irrigação e caminhos ornamentais foram projetados por François Marie Glaziou para integrar as palmeiras imperiais e a flora exótica trazida pelas imperatrizes.

Apesar de toda a sua relevância histórica, o Jardim do Cercadinho foi atingido por severos cortes orçamentais e crises de gestão na segunda metade do século XIX. Os investimentos foram severamente redirecionados para a malha ferroviária e a urbanização central, fazendo com que o complexo botânico fosse progressivamente desativado, invadido pela pastagem e sepultado pelo esquecimento em meados do século XIX.

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