A internacionalização do crime organizado brasileiro: o Comando Vermelho na guerra da Ucrânia

 Por Wagner Coelho 

Um infográfico dividido em três seções conectando o Rio de Janeiro à Guerra da Ucrânia. A primeira imagem mostra uma favela no Rio com grafites do Comando Vermelho e a legenda: 'Recrutamento no Salgueiro: Novas Táticas e Equipamento de Guerra Urbana'. A seção central exibe um mapa mundial traçando a 'Rota do Tráfico e Recrutamento: Rio -> Lisboa -> Ucrânia'. A terceira imagem retrata um soldado em um cenário de guerra na Ucrânia com equipamento de guerra eletrônica e a legenda: 'Campo de Treinamento: Operação de Drones e Guerra Eletrônica (KVS G-6)'. O título principal no topo diz: 'A INTERNACIONALIZAÇÃO DO CRIME: COMANDO VERMELHO NA GUERRA DA UCRÂNIA'. Um rodapé diz: 'DO FRONT PARA A FAVELA: O RETORNO COM CAPACITAÇÃO TÉCNICA E ARMAMENTO PESADO'.
De São Gonçalo ao Front Ucraniano: O infográfico resume a perigosa conexão entre o Comando Vermelho e a Guerra da Ucrânia, mostrando a rota de recrutamento e o treinamento militar e tecnológico que os combatentes recebem antes de retornar ao Brasil.

O fenômeno que emerge das investigações recentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro transcende o noticiário policial convencional. Integrantes do Comando Vermelho (CV) estão deixando as comunidades cariocas para integrar as fileiras do conflito russo-ucraniano — não como espectadores, mas como combatentes ativos. O que está em jogo não é apenas a segurança pública do estado fluminense, mas a própria noção de fronteira entre crime organizado doméstico e geopolítica global.

O dado concreto

A Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil identificou Philippe Marques Pinto, 29 anos, ligado a Antônio Hilário Ferreira, o "Rabicó" — chefe do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo e uma das principais lideranças do CV. Entre junho de 2023 e setembro de 2025, Philippe realizou três viagens à Europa, sempre com escala em Lisboa, e acredita-se que permaneça em território ucraniano. Em vídeo obtido pela investigação, ele exibe um fuzil AK-47 e declara: "É o CV puro e sem mistura. Seja em qual parte do mundo estivermos, nós somos eternos soldados do Cafu."

A reportagem do Domingo Espetacular (Record) localizou três brasileiros com passagem comprovada pelo tráfico — identificados como "G-S", "Mestre" e "Predador" — atualmente lutando ao lado do exército ucraniano. Recrutados via redes sociais, obtiveram passaporte e documentação regular e embarcaram atraídos por contratos de seis meses com remuneração entre R$ 17 mil e R$ 18 mil mensais, além de alojamento e alimentação. O Itamaraty registra 31 brasileiros mortos e 67 desaparecidos no conflito.

A motivação declarada versus o propósito real

Há duas leituras possíveis para o fenômeno, e ambas precisam ser examinadas com honestidade intelectual.

A leitura humanitária: Os indivíduos alegam buscar uma oportunidade de reinício. "Predador", que ingressou no tráfico aos 14 anos e foi preso, enxerga no front ucraniano uma alternativa à morte certa nas comunidades. "G-S", 24 anos, afirma ter abandonado a facção para escapar da violência cotidiana. Dessa perspectiva, o deslocamento revela o fracasso estrutural do Estado em oferecer horizontes minimamente viáveis a jovens que cresceram sob o domínio do crime organizado. A guerra, ironicamente, aparece como rota de fuga — ainda que para outro cenário de risco extremo.

A leitura estratégica: As autoridades suspeitam que o movimento não é apenas individual, mas orquestrado. O chamado "intercâmbio do crime" teria como objetivo central a capacitação técnica: uso de drones FPV, lançadores de granadas (RPGs), metralhadoras pesadas, sistemas de defesa antiaérea portáteis (Manpads) e táticas de guerra urbana — conhecimento a ser replicado contra as forças de segurança no Rio de Janeiro. A estimativa de que 200 a 250 brasileiros estejam hoje na Ucrânia, conforme artigo do Instituto Humanitas Unisinos, sugere um fluxo não desprezível e potencialmente coordenado.

O que a evidência material revela

Os indícios concretos inclinam a balança para a segunda leitura. Em 2024, um cabo da Marinha foi preso por operar drones para o CV. A polícia já apreendeu equipamentos de guerra eletrônica fabricados pela empresa ucraniana Kvertus — especificamente o modelo KVS G-6, um canhão que bloqueia sinais de drones a até 6 km de distância. Representantes da empresa estiveram no Rio de Janeiro em abril para vender os mesmos dispositivos às forças policiais brasileiras. A via pela qual esses equipamentos chegam às mãos do CV é o mercado negro, com rota que passa pela Europa Oriental e pelo Paraguai.

Não se trata, portanto, de especulação. Há uma cadeia logística documentada conectando o front ucraniano às favelas cariocas.

O risco estratégico para o Brasil

O retorno desses combatentes ao Brasil representa uma assimetria crescente entre a capacidade ofensiva do crime organizado e os recursos das forças de segurança. O traficante que volta da Ucrânia não é o mesmo que partiu. Ele domina:

Drones de ataque: uso de aeronaves não tripuladas para reconhecimento e lançamento de explosivos

Guerra eletrônica: bloqueio de sinais de comunicação e sistemas antidrone

Armamento pesado: manuseio de RPGs, metralhadoras e sistemas antiaéreos

Táticas de combate urbano: emboscadas, ataques coordenados e operações em ambiente densamente povoado

Some-se a isso o tráfico de armas: o enorme influxo de armamentos ocidentais para a Ucrânia gerou um mercado negro paralelo que já abastece organizações criminosas na América Latina. Apreensões recentes no Brasil flagraram desde fuzis de assalto até sistemas portáteis de defesa aérea.

O dilema ético e legal

A participação de brasileiros em conflitos armados estrangeiros viola a legislação nacional. Não há amparo legal para que cidadãos se alistem como mercenários em guerras no exterior — independentemente de sua motivação.

Do ponto de vista ético, o fenômeno coloca o poder público diante de uma contradição: como coibir a saída de ex-traficantes que, paradoxalmente, estão deixando o crime? A resposta não pode ser simplista. Se o Estado falha em oferecer caminhos de reintegração no Brasil, não lhe cabe apenas criminalizar a única rota de fuga que esses indivíduos encontraram — por mais perigosa e ilegal que seja.

O que precisa ser feito

O fenômeno exige três linhas de ação simultâneas:

1. Inteligência e monitoramento de fronteiras. O fluxo de combatentes para a Ucrânia e o retorno deles precisam ser rastreados de forma sistemática. Não se pode depender apenas de reportagens jornalísticas para dimensionar o problema.

2. Preparação das forças de segurança. As polícias e as Forças Armadas brasileiras precisam incorporar ao seu treinamento tático o enfrentamento de inimigos treinados em guerra convencional. A guerra urbana no Rio já não se assemelha a confrontos com facções locais — aproxima-se cada vez mais de um conflito assimétrico.

3. Políticas públicas de reinserção. Enquanto um jovem de 24 anos preferir os riscos de um front de guerra aos riscos de viver em uma comunidade dominada pelo tráfico, o Estado brasileiro terá perdido a disputa mais fundamental: a disputa pela legitimidade. Oferecer alternativas concretas — educação, trabalho, dignidade — não é pauta secundária. É condição de possibilidade para qualquer estratégia de segurança pública que se pretenda eficaz.

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