Crescimento do segmento evangélico transforma o grupo em alvo estratégico das campanhas, mas pesquisas indicam que religião não é o único fator que determina a escolha do eleitor
O voto evangélico voltou ao centro da disputa presidencial de 2026. Com o crescimento da população evangélica e a proximidade entre os principais candidatos nas pesquisas, conquistar esse eleitorado passou a ser uma das prioridades das campanhas.
Mas existe uma questão fundamental: o eleitor evangélico vota necessariamente de acordo com a orientação de pastores e lideranças religiosas?
Os dados mais recentes mostram que a resposta é mais complexa do que parece.
Segundo o Censo Demográfico 2022, divulgado pelo IBGE, os evangélicos já representam 26,9% da população brasileira com 10 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 47,4 milhões de pessoas. Em 2010, eram 21,6%. No mesmo período, a proporção de católicos caiu de 65,1% para 56,7%.
Esse crescimento transformou os evangélicos em um dos grupos sociais mais importantes para as estratégias eleitorais.
A força eleitoral do segmento aparece de maneira clara nas pesquisas presidenciais.
No Datafolha realizado entre 18 e 21 de agosto, em um eventual segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o candidato do PL aparece com 62% das intenções de voto entre os evangélicos, contra 29% de Lula.
Entre os católicos, ocorre o inverso: Lula aparece com 54%, enquanto Flávio tem 36%.
A diferença é expressiva, mas não significa que os evangélicos constituam um eleitorado homogêneo.
A própria trajetória recente demonstra isso.
Na pesquisa Genial/Quaest realizada entre 31 de julho e 3 de agosto, Flávio tinha 48% entre evangélicos em um segundo turno contra Lula, enquanto o petista aparecia com 33%. Em julho, os números eram 53% e 31%, respectivamente. Ou seja, houve redução da vantagem de Flávio e crescimento de Lula dentro do segmento.
O resultado sugere que existe preferência política entre os evangélicos, mas também existe espaço para mudança de voto.
Um levantamento inédito do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF), ajuda a entender a dimensão cultural da religião na política brasileira.
Segundo a pesquisa, 81% dos brasileiros consideram fundamental que um candidato acredite em Deus. O percentual chega a 89% entre pessoas com renda de até um salário mínimo.
O dado demonstra que a religião ultrapassa o universo estritamente evangélico.
Para os políticos, portanto, demonstrar proximidade com valores religiosos pode representar uma estratégia para ampliar a identificação com parte do eleitorado.
Mas isso não significa que a declaração de fé seja suficiente para garantir votos.
A ideia de que existe um único "voto evangélico" é uma das principais armadilhas da análise eleitoral.
Existem diferenças entre denominações, regiões, faixas de renda, gerações e posicionamentos políticos.
A série Voto Pendular, do Jornal da Globo, exibida em agosto de 2026, ouviu evangélicos indecisos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Entre as preocupações apresentadas pelos entrevistados aparecem temas como violência, família, trabalho, saúde, educação e situação financeira.
O levantamento também mostra que nem todos colocam a religião como principal critério para escolher um candidato.
Esse comportamento é importante para entender a eleição.
Um eleitor pode ser evangélico e, ao mesmo tempo, considerar decisivos o preço dos alimentos, a segurança pública, o emprego, a saúde ou os programas sociais.
A religião pode fazer parte da identidade política, mas não necessariamente determina o voto.
A influência de pastores e líderes religiosos é real, mas precisa ser analisada com cautela.
Em 2026, um dado chama atenção: o número de candidatos que utilizam títulos religiosos no nome de urna como "pastor", "bispo" e "missionário" caiu de 524 em 2022 para 311 em 2026, uma redução de aproximadamente 40%.
É o menor número desde 2010, segundo levantamento realizado pelo UOL a partir dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O movimento pode indicar uma mudança de estratégia.
Em vez de apresentar explicitamente uma identidade religiosa, candidatos podem estar tentando dialogar com o eleitorado cristão por meio de valores, discursos e pautas consideradas importantes por esse público.
Isso também sugere que a identificação religiosa no nome do candidato, por si só, não garante sucesso eleitoral.
Desde 2018, o eleitorado evangélico passou a ser associado fortemente ao bolsonarismo.
Em 2026, Flávio Bolsonaro mantém uma vantagem significativa nesse segmento, segundo o Datafolha.
Mas o campo evangélico não pertence exclusivamente à direita.
Há lideranças e candidatos evangélicos ligados ao centro e à esquerda, mostrando que existe uma diversidade política dentro das igrejas.
Um levantamento publicado pelo Le Monde Diplomatique Brasil identificou 144 candidaturas a deputado federal que utilizam referências religiosas no nome de urna em 2026 entre termos como pastor, irmão, missionário, bispo ou apóstolo. O levantamento destaca também o crescimento de candidaturas evangélicas ligadas a partidos da base de Lula.
A existência desse grupo desmonta a ideia de que ser evangélico significa automaticamente apoiar a direita.
A aproximação entre política e religião também gera uma discussão jurídica.
A legislação eleitoral estabelece restrições à realização de propaganda eleitoral em templos religiosos.
O tema voltou ao debate em agosto, depois de um ato envolvendo o governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas, em uma igreja evangélica. Uma associação pediu investigação ao Ministério Público Eleitoral e alegou possível irregularidade eleitoral.
O episódio demonstra o dilema enfrentado pelas campanhas: como dialogar com um eleitorado fortemente religioso sem transformar espaços de fé em palanques eleitorais?
A questão deve permanecer no centro do debate durante a campanha.
O VOTO EVANGÉLICO SERÁ DECISIVO?
A resposta mais provável é: pode ser decisivo, mas não necessariamente determinante sozinho.
O segmento representa mais de um quarto da população brasileira com 10 anos ou mais e, nas pesquisas atuais, apresenta uma vantagem expressiva para Flávio Bolsonaro em relação a Lula.
Ao mesmo tempo, os números mostram movimentação dentro desse eleitorado.
Na pesquisa Datafolha, Lula tem 39% no primeiro turno contra 33% de Flávio. Em um eventual segundo turno, Lula aparece com 47% contra 43% do adversário.
Outro levantamento, do PoderData/Aya, divulgado em 27 de agosto, mostra uma disputa ainda mais apertada no cenário geral: Lula aparece com 38% no primeiro turno e Flávio com 35%. No segundo turno, são 45% contra 44%, dentro da margem de erro.
Em uma eleição tão equilibrada, pequenas mudanças dentro de segmentos grandes podem ter impacto significativo no resultado final.
A principal conclusão desta eleição pode ser justamente a necessidade de olhar para o evangélico antes de enxergá-lo apenas como "voto religioso".
O eleitor evangélico também é trabalhador, empreendedor, mãe, pai, jovem, aposentado, morador da periferia, integrante da classe média e beneficiário ou contribuinte de políticas públicas.
Ele pode defender valores religiosos e, simultaneamente, discordar de um candidato em questões econômicas ou sociais.
Por isso, a pergunta talvez não seja apenas "em quem os evangélicos vão votar?"
A pergunta mais precisa é:
até que ponto a religião orienta o voto e a partir de que momento questões concretas da vida cotidiana passam a falar mais alto?
Em 2026, os candidatos parecem saber que precisam conquistar os evangélicos. O desafio será descobrir se conseguem conquistar o eleitor evangélico, e não apenas suas lideranças.
ANÁLISE POLÍTICA
O cenário atual permite identificar três movimentos.
Primeiro: o eleitorado evangélico se tornou grande demais para ser ignorado. Com 26,9% da população de 10 anos ou mais, trata-se de um segmento eleitoral estratégico.
Segundo: a vantagem de Flávio Bolsonaro entre evangélicos é hoje um dos principais obstáculos para Lula. O Datafolha mostra uma diferença de 33 pontos percentuais no segundo turno nesse segmento: 62% a 29%.
Terceiro: há sinais de que essa vantagem não é completamente impermeável. A Quaest mostrou redução da vantagem de Flávio entre evangélicos de julho para agosto, enquanto a série Voto Pendular revelou eleitores evangélicos indecisos preocupados com questões que vão além da religião.
Politicamente, isso cria uma situação interessante.
Para Flávio, o desafio é consolidar uma vantagem já existente sem depender exclusivamente da identificação religiosa ou do legado de Jair Bolsonaro.
Para Lula, o desafio é maior: reduzir uma diferença muito elevada entre evangélicos, aproximando-se desse eleitor sem necessariamente abandonar sua base tradicional entre católicos, mulheres, população de menor renda e Nordeste.
A disputa pelo voto evangélico, portanto, não será apenas uma disputa entre igrejas e partidos. Será uma disputa pela interpretação das prioridades de milhões de brasileiros.
E, em uma eleição presidencial apertada, esses milhões podem fazer diferença.
O primeiro erro seria imaginar que os quase 27% de brasileiros evangélicos formam um grupo politicamente uniforme.
O antropólogo Juliano Spyer, pesquisador do comportamento dos evangélicos, chama atenção justamente para essa diversidade. O segmento reúne diferentes denominações, condições econômicas, gerações e posicionamentos políticos.
A cientista política Ana Carolina Evangelista, diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (ISER), também questiona a interpretação de que a política dentro das igrejas funcionaria simplesmente por meio de uma ordem hierárquica: o pastor declara apoio e o fiel automaticamente acompanha.
Em debate promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso sobre as eleições de 2026, Evangelista destacou que pesquisas apontam resistência de parte dos fiéis quando a política invade diretamente o espaço do culto. Ao mesmo tempo, ela observa que isso não significa necessariamente uma mudança significativa na preferência eleitoral dos evangélicos, que continuam apresentando tendência de apoio a candidatos de oposição ao PT.
Por isso, a questão permanece aberta: o voto evangélico será decisivo em 2026 ou os candidatos estão superestimando o poder das lideranças religiosas sobre seus próprios fiéis?

